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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Zolder

Criado como alternativa para as ruas da cidade, Zolder cresceu e viu sua passagem pela F1 ficar marcada na história de forma trágica.

Se tem uma coisa que os habitantes da pequena cidade belga de Heusden-Zolder, a cerca de 80 quilômetros da capital Bruxelas, gostam é de automobilismo. Desde os anos 1950, o Motor Club da cidade já promovia corridas em volta da praça da cidade. Como o circuito improvisado estava longe do ideal, além de ser perigoso, a solução encontrada foi buscar um local permanente para a realização das corridas.

A busca por um local acabou na propriedade de Antoine Palmers de Terlaemen. A área arborizada, localizada nos arredores da cidade, era perfeita por contar com estradas que poderiam ser ligadas para formar o circuito. Só tinha um porém: Antoine liberou o uso de suas terras com a condição de que o circuito fosse nomeado em sua homenagem. E assim surgiu o Circuito de Terlaemen, inaugurado em 1961. 

Pouco se sabe do traçado original do circuito de 2,6 km, além de ser bem básico. Por isso, logo se viu a necessidade de uma reforma. Para criar o traçado foi chamado John Hugenholtz Sr, que já tinha gerenciado Zandvoort e estava desenhando o circuito de Suzuka, no Japão. As obras começaram em 1962 e a nova pista ficou pronta no ano seguinte.

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Primeiro traçado de Zolder depois da reforma de 1962. O circuito passou a ter 4,168 km. – Foto: reprodução

O primeiro piloto a vencer no novo circuito foi o holandês Rob Slotemaker, que ganhou o GP de Limburg, nome da região onde fica localizado o circuito. Zolder passou a receber também competições de motociclismo, mas o sucesso eram as corridas de F2, que contou com vitórias de nomes como Jack Brabham, John Surtees e Jochen Rindt. 

Com o sucesso das corridas, Zolder começou a sonhar com a F1. O sonho virou realidade em 1973, quando o circuito abrigou seu 1º GP da Bélgica, alternando com o recém construído circuito de Nivelles-Baulers. 

Largada do GP da Bélgica de 1973, a primeira corrida da F1 realizada no circuito. – Foto: reprodução

A realização da prova só foi possível devido aos perigos de Spa-Francorchamps, que precisou passar por uma reforma. Antes de receber a corrida, o circuito passou por uma modificação, com a chicane Kleine sendo adicionada na Sacramentshelling, para diminuir a velocidade dos carros de F1. 

Traçado usado entre 1973-74. Mudança foi feita para receber a F1, adicionando a chicane Klein. – Foto: reprodução

Faltando uma semana para a corrida, uma fiscalização descobriu que o asfalto da pista estava se soltando e a melhor alternativa era recapear a pista inteira. Os pilotos começaram a ameaçar não correr, já que o tempo para deixar a pista pronta não era o ideal e mesmo o novo asfalto já dava sinais que não comportaria a velocidade dos carros. E o temor dos pilotos virou realidade, quando durante a corrida, o asfalto começou a se esfarelar, o que contribuiu para vários acidentes. A corrida terminou tendo Jackie Stewart como vencedor e Niki Lauda marcando seus primeiros pontos na F1, ao chegar em 5º. O austríaco venceria as corridas de 1975 e 76, se tornando o maior vencedor no circuito. 

Pista de Zolder é inspecionada antes da corrida. Pilotos reclamavam do perigo do esfarelamento do asfalto. – Foto: reprodução
Asfalto defeituoso causou muitos acidentes na primeira corrida em Zolder. – Foto: reprodução

Para a corrida de 1975, o circuito passou por mais uma modificação visando diminuir a velocidade dos carros, com uma nova chicane, nomeada de Jacky Ickx, sendo adicionada. 

Traçado reformado em 1975, acrescentando a curva Jacky Ickx, em homenagem ao piloto que mais reclamou das condições da pista em 1973. – Foto: reprodução

Nos anos 1980, Nivelles deixou de receber corridas e Zolder passou a ser um circuito permanente no calendário. Só que o circuito não desagradava somente aos pilotos. Os mecânicos também sofriam com o pitlane apertado e cheio de gente, o que tornava um perigo para quem trabalhava nas equipes. Durante os treinos para a corrida de 1981, o mecânico Giovanni Amadeo perdeu o equilíbrio e caiu no pitlane, no caminho da Williams de Carlos Reutemann. Sem conseguir desviar, Reutemann atingiu o mecânico, que faleceu um dia depois da corrida.

Pitlane em Zolder. Espaço apertado era perigoso para os mecânicos, que viram a morte de Giovanni Amadeo, atropelado por Carlos Reutemann. – Foto: reprodução

O outro acidente aconteceu na largada. Depois de uma formação de grid caótica, Riccardo Patrese desligou seu motor, pensando que ainda haveria tempo até o começo da corrida, mas a direção de prova resolveu seguir com os procedimentos de largada. Patrese então começou a acenar, avisando que seu carro estava apagado. O mecânico Dave Luckett entrou na pista para acionar o motor na parte traseira e mesmo com o mecânico na pista, a largada foi dada. Siegfried Stohr não viu o carro do companheiro de equipe parado e acabou acertando a traseira de Patrese, atropelando Luckett. Apesar da gravidade da batida e dos ferimentos, o mecânico sobreviveu ao acidente. Por conta disso se instituiu a regra que dura até hoje, na qual todos os mecânicos devem deixar o grid até 15 segundos antes do início da volta de apresentação. A corrida acabou sendo vencida por Reutemann e contou com o primeiro pódio de Mansell. 

O mecânico Dave Luckett é atropelado durante a largada, quando tentava religar o carro de Patrese. – Foto: reprodução

Em 1982, uma nova tragédia abalou ainda mais o circuito e ficou marcada na história da pista. O piloto canadense Gilles Villeneuve, dava suas últimas voltas durante a classificação para a corrida de 1982, quando colidiu com a traseira do carro de Jochen Mass. O carro capotou e o piloto foi arremessado para fora de sua Ferrari ainda preso ao seu assento. Apesar da equipe médica ter chegado logo em seguida, Villeneuve não sobreviveu à uma fratura no pescoço e faleceu mais tarde no hospital. 

Carro de Gilles Villeneuve após acidente que o vitimou. Depois disso, Zolder foi substituído por Spa no calendário. – Foto: reprodução

A F1, que já tinha uma predileção por Spa, achou a desculpa perfeita para voltar ao circuito, que recebeu o GP da Bélgica de 1983. Em 1984, Zolder fez sua corrida de despedida antes de perder de vez seu lugar no calendário, com a corrida sendo vencida por Michele Alboreto, a primeira do piloto italiano com a Ferrari. 

Zolder ainda continuou recebendo outras categorias, como a DTM, com novas reformas sendo feitas, inclusive na curva que vitimou Villeneuve, que ganhou uma chicane com seu nome e também na chicane Jacky Ickx.

Traçado usado entre 1986 e 2001, que ganhou uma chicane no lugar do acidente com Gilles Villeneuve. – Foto: reprodução

Em 1996, um novo administrador passou a gerenciar o circuito e novas mudanças foram feitas buscando trazer Zolder de volta ao padrão internacional. A primeira mudança foi alargar a reta dos boxes. Em 2001, mais uma mudança radical, realinhando quase 1 km de pista, logo após a linha de largada, melhorando também as áreas de escape. Outras mudanças vieram em 2006 e 2007, ano em que a pista recebeu uma corrida de Champ Car. Atualmente, o circuito recebe provas da DTM e do campeonato de endurance belga, além de provas de ciclismo.

O circuito recebeu algumas modificações depois de 2001 e a pista continua na ativa, tendo a DTM como categoria principal. – Foto: reprodução

Em número de vitórias, apenas Niki Lauda conseguiu subir no degrau mais alto do pódio duas vezes, com Jackie Stewart, Gunnar Nilson, Mario Andretti, Jody Scheckter, Didier Pironi, Carlos Reutemann, John Watson e Michele Alboreto sendo os demais vencedores em Zolder. Já em número de pódios, Carlos Reutemann lidera a tabela, com 4, seguido de Niki Lauda e Jacques Laffite, com 3.

Niki Lauda foi o único piloto a conquistar mais de uma vitória no circuito. – Foto: reprodução

Entre os pilotos da casa, Jacky Ickx, Patrick Neve e Thierry Boutsen foram os únicos belgas a andar no circuito, com Neve sendo o piloto com o melhor resultado dos três, conseguindo o 10º lugar na corrida de 1977. 

Entre os brasileiros, seis pilotos já correram em Zolder: os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi, Carlos Pace, Chico Serra, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Raul Boesel. O melhor resultado ficou por conta de Emerson Fittipaldi, que subiu ao pódio quando chegou em 3º na corrida de 1973. 

 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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