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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Riverside

O circuito construído no deserto da Califórnia, que viu o piloto da casa Dan Gurney se destacar, hoje fica só na lembrança

A história do circuito Riverside International Raceway começou com Rudy Cleye, um imigrante alemão que se mudou para os Estados Unidos nos anos 1940. Cley começou a trabalhar como garçom em New York, antes de se mudar para a Califórnia e abrir seu próprio restaurante.

Quando morava na Europa, Cleye já era um apaixonado por automobilismo e com as corridas começando a fazer sucesso nos Estados Unidos, ele deu um jeito de se envolver, organizando o West Coast Automotive Testing Corp, um grupo que buscava soluções para a falta de circuitos permanentes na Califórnia. 

Amante do automobilismo, Rudy Cleye (na foto competindo em Palm Springs em 1956) quis construir um circuito permanente, ao contrário dos demais circuitos da época, que eram de rua e por isso, mais perigosos, principalmente para o público. – Foto: reprodução

Buscando um lugar para construir um circuito, o grupo chegou em uma região no deserto perto de San Bernardino, na região de Los Angeles. Terreno comprado, as obras do novo circuito começaram logo em 1957. Só que os organizadores ficaram sem dinheiro para completar a pista. Foi aí que o empresário John Edgar entrou na história e salvou a construção, investindo o dinheiro que faltava para concluír a obra desse circuito de estrada.

O traçado mais longo de Riverside tinha 5,230 km e o circuito ainda permitia mais duas opções de traçado. Em 1960, o número de traçados alternativos aumentou para cinco. Foto: reprodução
Foto promocional tirada antes da inauguração, com os pilotos saindo da longa reta e entrando na curva 9. – Foto: reprodução
Outra parte da pista que era desafiadora para os pilotos era o trecho em S. – Foto: reprodução

Nos dias 21 e 22 de setembro de 1957, várias corridas de carros esportivos marcaram a inauguração do circuito, com Richie Ginther e Ricardo Rodriguez vencendo as corridas principais. Na ocasião, Rodriguez tinha apenas 15 anos e precisou de uma permissão especial da polícia rodoviária para competir. John Edgar também participou da edição, inscrevendo sua Maserati 450S na prova, o mesmo carro usado por Fangio na vitória em Sebring naquele mesmo ano e tendo Carroll Shelby no volante. Shelby acabou não participando da corrida, depois de sofrer um acidente nos treinos. 

Richie Ginther foi o vencedor da primeira corrida disputada em Riverside, em 1957. -Foto: reprodução
Caroll Shelby bateu o carro de John Edgar nos treinos e não participou da corrida. No hospital, Shelby levou 72 pontos no rosto. – Foto: reprodução

Outro piloto que teve destaque foi Dan Gurney, morador de Riverside, que venceu em sua categoria e começou a chamar a atenção. A pista logo se mostrou perigosa também. No mesmo evento de inauguração, John Lawrence perdeu o controle do carro, que capotou. Lawrence bateu a cabeça no acidente e faleceu mais tarde no hospital, vítima de uma lesão cerebral. 

No dia 17 de novembro aconteceu a primeira edição do Los Angeles Times Grand Prix, uma longa parceria entre o jornal e o circuito, que contou com vários pilotos importantes, como Carroll Shelby, Masten Gregory e Ken Miles. O destaque, no entanto, ficou com Dan Gurney, que foi chamado por Frank Arciero para testar e pilotar o Arciero Special, carro que mesmo pilotos experientes como Shelby e Miles achavam difícil de guiar. Gurney surpreendeu a todos ao brigar pela vitória, perdendo a liderança da corrida para Shelby apenas no final da prova. 

Luigi Chinetti, importador da Ferrari na América do Norte estava na platéia e ficou impressionado com o que viu, convidando Gurney para pilotar por sua equipe na edição de 1958 de Le Mans. 

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Carroll Shelby (carro 98) persegue Dan Gurney (carro 69). Mesmo com um carro difícil de guiar, Gurney brigou pela vitória até o fim, recebendo um convite para participar da corrida em Le Mans em 1958. Na famosa corrida de endurance, Gurney chamou a atenção de Enzo Ferrari, que o levou para a F1 em 1959. – Foto: reprodução
Carroll Shelby comemora a vitória em Riverside ao lado de John Edgar (de óculos escuros). – Foto: reprodução

Em 1958, a edição do Los Angeles Times Grand Prix foi válida pelo campeonato USAC Road Racing e foi vencida por Chuck Daigh, com Dan Gurney chegando em segundo. 

Nesse mesmo ano, a NASCAR desembarcou no circuito, com a Crown American 500, uma corrida de 500 milhas, realizada no dia 1º de junho. Era a primeira vez que a categoria usava um circuito de estrada e para a corrida, a pista foi usada no sentido anti-horário, diferente do que era o habitual. E quase que a corrida não aconteceu! O promotor Al Slonicker colocou outras categorias para servir de apoio para a corrida principal, mesmo sem muito público presente. Logo começaram os boatos de que Slonicker não teria dinheiro para pagar as taxas da realização da prova da NASCAR. A corrida, vencida por Eddie Grey, só foi adiante depois que a taxa foi paga. 

Depois desse episódio, a NASCAR foi correr em outras pistas, mas o circuito não ficou sem uma atração principal de peso. Em 1959, a F1 realizou uma corrida em Sebring, que foi um fracasso de público. O promotor Alec Ulmann foi procurar outro lugar para receber a F1 e Riverside ganhou a oportunidade. 

No dia 20 de novembro de 1960, os 25 mil espectadores viram a vitória de Stirling Moss, com Innes Ireland e Bruce McLaren completando o pódio. 

Depois de perder boa parte da temporada se recuperando de um acidente, Stirling Moss venceu a única corrida de F1 que o circuito recebeu. – Foto: reprodução

A etapa fechou a temporada, mas Jack Brabham, que chegou em 4º na corrida, já tinha vencido o campeonato com duas etapas de antecipação e por isso a Ferrari nem mandou seus carros para a Califórnia. O problema de falta de público continuou, muito por culpa do próprio Ulmann, que dias antes da corrida, declarou que a F1 atrairia muito mais público do que a LA Times Sports Car Grand Prix, porque a corrida patrocinada pelo jornal não era considerada um Grande Prêmio de verdade. Em retaliação, o LA Times, maior jornal da região, não fez a cobertura da corrida da F1. Depois de mais esse fracasso, a F1 foi disputar suas corridas em Watkins Glen. 

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Em 1960, o circuito foi vendido para o empresário Ed Pauley, o investidor Fred Levy e o comediante Bob Hope, com a direção ficando nas mãos da estrela do futebol americano, Les Richter. Richter se mostrou a aposta certa para o circuito e uma de suas maiores conquistas foi convencer Bill France a trazer a NASCAR de volta. 

Depois de um breve hiato, a NASCAR voltou a correr em Riverside. – Foto: reprodução

Os pilotos mais velhos ainda ofereceram resistência ao circuito de estrada, com os pilotos que participaram da corrida tendo dificuldades em navegar pelas curvas do traçado sem ir para a área de escape. Melhor para os pilotos que estavam acostumados com esse tipo de pista, como Dan Gurney, que venceu cinco corridas no circuito.

Dan Gurney, depois de vencer a etapa de 1966 em Riverside. Somando NASCAR e USAC, o piloto venceu sete vezes no circuito da cidade onde cresceu. – Foto: reprodução

O circuito, no entanto, mostrou seus perigos e vários pilotos de diversas categorias sofreram acidentes graves, com alguns não tendo a sorte de saírem com vida da pista californiana. Em 1964, Joe Weatherly bateu na curva 6 e como o piloto só usava o cinto de segurança abdominal afrouxado, se recusando a usar o cinto de ombros, acabou batendo a cabeça em uma barreira de aço, morrendo na hora. 

Em 1965, foi A.J.Foyt que sofreu um forte acidente, ao perder o freio no final da reta. O piloto foi salvo por seu colega Parnelli Jones, que percebeu que Foyt ainda estava vivo e começou a fazer as manobras de ressuscitação, já que os médicos já tinham declarado o piloto como morto. Foyt saiu do acidente com lesões severas no peito e fraturas nas costas e tornozelo, mas se recuperou completamente, vencendo corridas importantes nos anos seguintes, como duas edições das 500 Milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans. 

A Ford usava muito a pista de Riverside para testes e desenvolvimento de seus carros e em agosto de 1966, Ken Miles, que foi um dos responsáveis pelo sucesso da Ford em Le Mans, fazia um teste quando o carro ficou instável e o piloto perdeu o controle no final da reta. O carro capotou e pegou fogo, com Miles sendo ejetado para fora durante o capotamento, morrendo na hora.

A pista de Riverside tirou a vida de 19 pilotos, entre eles, Ken Miles, que testava pela Ford quando sofreu um acidente fatal. – Foto: reprodução

Em dezembro de 1969, Dr. Lou Sell, campeão da American Formula 5000 também bateu e seu carro pegou fogo. Apesar das graves queimaduras, o piloto sobreviveu. 

Depois de tantos acidentes, não havia outra solução do que alterar a pista. Em 1969, a American Raceways Inc. comprou metade das ações do circuito e esse dinheiro foi usado para fazer a reforma do traçado, que sofreu alteração na curva 9, com a reta ganhando um leve desvio para a entrada do banking de 10 graus, desenhada pelo engenheiro David Berg. Essa alteração visava reduzir a forte frenagem que os pilotos tinham que fazer para entrar na curva depois de vir a toda velocidade na longa reta que antecedia o trecho. A curva 1 também foi realinhada e ganhou uma pequena área de escape, depois que os boxes foram transferidos para o lado de dentro do traçado. Com as alterações, o circuito perdeu as duas configurações de ovais que tinha, apesar dessa opção quase nunca ser usada. 

Planta das reformas no traçado de Riverside, com três opções de traçado. O traçado principal ficou com 5,311 km. – Foto: reprodução

As mudanças feitas não afastaram os perigos da pista. Durante a edição de 1983 do LA Times IMSA Grand Prix, Rolf Stommelen sofreu um acidente e não sobreviveu. Já Lyn St. James teve mais sorte, quando em uma corrida em 1986, seu carro foi atingido pelo Corvette de Doc Bundy, que também acertou o carro de Chip Robinson. O carro de St. James pegou fogo e o de Robinson por pouco não voou na multidão, com todos os envolvidos saindo sem lesões. 

Nos 31 anos de atividade, o circuito de Riverside foi palco de 21 mortes, sendo 19 pilotos, um membro de equipe e um espectador. 

Junto com os problemas de segurança, também vieram problemas na administração. Em 1971, o circuito foi vendido pela American Raceways, que tinha declarado falência. O grupo que comprou 80% do circuito era liderado pelo advogado e empreendedor imobiliário Fritz Duda. Em 1983, os outros membros do grupo deixaram o projeto, incluindo Roy Hord e Les Richter, que atuavam como gerentes do circuito. Duda comprou o restante das ações e o circuito se manteve funcionando. 

O circuito, que antes ficava isolado no deserto, agora se via cada vez mais cercado por casas e empreendimentos, se tornando parte do condado de Moreno Valley. E sendo Duda um empreendedor, não tardou para o circuito ser fechado e transformado em casas e em um shopping center. O ano de 1988 marcaria o último ano de corridas profissionais no circuito, contando com uma etapa da NASCAR em junho e mais algumas pequenas corridas em julho e agosto, quando a demolição começou. Uma parte do circuito ainda resistiu por mais um ano, recebendo corridas sob o nome de Riverside Regional Raceway, mas só durou um ano. Em 1992, com a construção do shopping, a pista, que recebeu categorias como a NASCAR, Can-AM, Trans Am, IndyCar, IMSA, USRRC, NHRA e AMA Superbikes, desapareceu por completo.

Além das corridas, Riverside também era uma local muito reservado para gravações de séries e filmes, com mais de 20 produções usando a pista para suas cenas. O prédio da administração ainda resistiu por mais alguns anos, mantendo uma parte do circuito ainda visível, até que em 2005, foi demolido para a construção de casas. As ruas de um dos complexos até recebeu nomes de pilotos famosos, como Mario Andretti, Dan Gurney, Roger Penske e John Surtees. 

Área onde ficava o circuito. A parte do S hoje faz parte de um shopping. – Foto: reprodução

Na única corrida de F1 disputada em Riverside, seis pilotos da casa estavam na pista: Dan Gurney, Bob Drake, Chuck Daigh, Jim Hall, Pete Lovely e Phil Hill, que foi o melhor colocado entre seus conterrâneos, chegando em 6º. Nesse ano, não houve nenhum representante brasileiro na categoria. 

Correndo em casa, Pete Lovely (carro 25) é seguido por Wolfgang von Trips (26) e o também estadunidense Chuck Daigh (23), durante o GP dos EUA de 1960. Foto: reprodução

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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