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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Nürburgring

Apelidado de “inferno verde”, Nürburgring, com seus mais de 20 km e muitas curvas, era um desafio para os pilotos.

“Inferno verde”. É assim que Jackie Stewart apelidou o circuito de Nürburgring, com seus mais de 20 km de extensão e muitas curvas, que se tornaram um desafio para os pilotos. 

A história do circuito começou em 1907, quando o piloto Felice Nazzaro venceu a corrida Kaiserpreis com a Fiat. Vendo a marca italiana vencer a corrida, o Kaiser Wilhelm II exigiu uma explicação sobre a derrota das montadoras alemãs, que se inscreveram em peso para a corrida e mesmo assim saíram sem a vitória para o país. A resposta recebida foi que elas não tinham uma pista que fosse adequada para desenvolver e testar seus veículos. A solução foi construir uma pista permanente e o lugar escolhido ficava perto da cidade de Adenau, na região das montanhas Eifel, onde já era disputada a Eifelrennen, mas sempre em pistas improvisadas em estradas públicas. Tudo parecia ir bem, até que a Primeira Guerra Mundial fez o projeto ser engavetado.

Quando a guerra acabou, a Alemanha estava destruída economicamente, mas usando a desculpa de que o circuito poderia fazer ressurgir a indústria automobilística alemã, a ideia foi levada adiante. O presidente do ADAC (Allgemeiner Deutscher Automobile Club), Dr. Otto Creutz, acreditava no projeto e fez um acordo com o prefeito de Cologne, Konrad Adebauer, para que a pista saísse do papel, já que a obra diminuiria o desemprego pós-guerra. 

As obras do circuito, desenhado pelo arquiteto Gustav Eichler, começaram no dia 27 de setembro de 1925 e mais de 2.500 operários trabalharam para construir o circuito, que era formado por dois traçados principais. O traçado norte, Nordschleife, tinha 22,810 km e a parte sul, o Südschleife, tinha 7,747 km, com os dois dividindo a mesma linha de largada/chegada. Quando os dois circuitos eram combinados, o circuito ficava com 28,265 km, mas essa configuração completa só foi usada até 1931. Nürburgring ainda tinha mais duas configurações menores de pista, usadas para testes das montadoras.

Traçado completo de Nürburgring, que somadas as partes norte e sul tinha 28,265 km de extensão. – Foto: reprodução

A parte norte, que tinha 73 curvas (33 para a esquerda e 40 para a direita), ficou pronta primeiro, em 1926 e a parte sul, no ano seguinte. E o projeto ainda incluía uma área de paddock, ligada aos boxes por um túnel, arquibancadas para 10 mil pessoas, uma torre de controle, além de um hotel e um restaurante. As 10 cabines dos fiscais na pista eram interligadas por linhas telefônicas, o que facilitava a comunicação no gigantesco circuito. Já o nome Nürburgring foi escolhido em um concurso e era uma homenagem ao castelo Nürburg, que fica dentro do circuito e também dá nome à cidade por onde passa parte da pista. 

Ao fundo, o Castelo de Nürburg, que fica dentro de Nordschleife e dá nome ao circuito. – Foto: reprodução
Traçado de Nordschleife, a parte norte do circuito, que foi a mais utilizada. – Foto: reprodução

O Nordschleife foi inaugurado no dia 18 de junho de 1927, com a prova Eifelrennen de motociclismo. Os carros foram à pista no dia seguinte, com a vitória de um carro da Mercedes, pilotado por Rudolf Caracciola, que ficou maravilhado com o circuito e a paisagem ao redor. No dia 17 de julho, aconteceu o primeiro GP da Alemanha, vencido por Otto Merz em uma Mercedes S.

Otto Merz, vencedor do primeiro GP da Alemanha, disputado em Nürburgring em 1927. – Foto: reprodução
Rudolf Caracciola, vencedor da Eifelrennen, 1ª corrida disputada em Nürburgring, em 1927. O piloto venceria 9 corridas no circuito, sendo 4 Eifelrennen e 5 GP da Alemanha. – Foto: reprodução

Uma das curvas mais icônicas da parte norte nasceu por conta de um truque de Caracciola. Na curva Karussell, o piloto enganchava o pneu numa vala para guiar o carro e com isso ganhar alguns segundos de vantagem. Todos os demais pilotos começaram a copiar o truque e a vala acabou sendo coberta e asfaltada, criando o famoso banking. Depois de alguns anos, a parte do banking foi ampliada para caber o carro inteiro e alavancar o carro durante o hairpin. 

Banking Caracciola-Karussell, criado após truque dos pilotos para ganhar mais velocidade. – Foto: reprodução

Em 1934, nasceu no circuito a lenda da Flecha de Prata da Mercedes, quando a equipe, pronta para fazer sua participação na Eifelrennen, se viu acima do peso permitido. Sem ter mais o que tirar do carro, a solução foi raspar a tinta branca. O truque deu certo e o carro prateado venceu a corrida, com Manfred von Brauchitsch no volante. A flecha prateada seguiu dominando, vencendo 4 campeonatos europeus de pilotos em cinco anos.

A primeira flecha prateada, carro vencedor da Mercedes entre 1934 e 1939. – Foto: reprodução

A Segunda Guerra Mundial interrompeu as atividades na pista. O hotel que ficava no circuito serviu de acomodação para os refugiados e depois foi transformado em hospital. Outras partes do circuito foram usadas como curral e abrigaram gado. Quando a guerra chegou ao fim, a pista estava destruída, assim como alguns prédios administrativos e o hotel. 

O circuito ficou destruído após a Guerra e teve que ser reconstruído. – Foto: reprodução

Todo o circuito teve que ser reconstruído, com a parte sul sendo reaberta primeiro, recebendo a Eifel Cup de motociclismo, em agosto de 1947. No ano seguinte, começaram as obras na parte norte, que só passou a receber corridas em maio de 1949. Logo várias categorias voltaram a competir em Nürburgring, como a F2, que voltou a correr no circuito em 1950. 

E no dia 29 de julho de 1951, Nürburgring finalmente recebeu uma corrida de F1. A prova foi vencida por Alberto Ascari, sendo sua primeira vitória na F1.

Alberto Ascari durante o GP da Alemanha, em 1951, sua primeira vitória na F1. – Foto: reprodução

O circuito passou por algumas reformas durante os anos. Em 1954, foi erguida a Dunlop Tower, o primeiro placar eletrônico desse tipo no mundo. Mas suas curvas ainda traziam riscos e até 1969, 38 pilotos já tinham perdido a vida no circuito. Um dos pontos alterados foi justamente a Dunlop Tower, que ficava muito próxima à pista e quase foi atingida várias vezes pelos carros em alta velocidade. 

Torre Dunlop, antes das mudanças. A proximidade com a pista quase causou muitos acidentes. – Foto: reprodução
Torre Dunlop, já protegida por uma separação entre a pista e os boxes. – Foto: reprodução

Para diminuir a velocidade e criar um traçado mais seguro perto da torre, a chicane Hohenrain foi instalada no local em 1967. Dois anos mais tarde, foi construída uma nova área de boxes, que pela primeira vez foi separada da pista por um guard rail.

Traçado de Nürburgring em 1967, com a adição da chicane Hohenrain, perto da linha de largada/chegada. – Foto: reprodução

Apesar de todas as mudanças, a segurança ainda era precária e os pilotos da F1, liderados por Jackie Stewart, boicotaram o circuito. O GP da Alemanha acabou indo para Hockenheim em 1970, até que Nürburgring fizesse as alterações necessárias. 

Em fevereiro de 1971, as obras começaram, com guard rails sendo instalados ao longo do circuito e áreas de escape sendo colocadas em boa parte da pista. Com as mudanças, a F1 voltou a correr no circuito em 1971, com a vitória de Jackie Stewart. 

Outras pequenas alterações foram realizadas, mas o circuito ainda continuava perigoso. Uma das preocupações estava no comprimento da pista, já que os 22,834 km eram demais para serem guarnecidos com fiscais e equipe médica. 

Em 1976, o circuito presenciou seu mais famoso acidente, quando Niki Lauda bateu e seu carro pegou fogo. Lauda foi salvo por outros pilotos e após quase morrer no hospital, conseguiu se recuperar e voltar ao campeonato seis semanas depois, ainda sustentando as feridas causadas pelas queimaduras do acidente. 

Acidente de Niki Lauda em Nürburgring, durante a corrida de 1976, que fez a F1 transferir o GP para Hockenheim. – Foto: reprodução
Niki Lauda, ao lado de James Hunt, ficou com cicatrizes no rosto após o acidente. – Foto: reprodução

VÍDEO Batida de Niki Lauda

A F1 desistiu de correr no circuito e logo outras categorias seguiram o exemplo, principalmente depois do acidente fatal em uma etapa de Sportscars, que vitimou o piloto Herbert Müller, o 56º a morrer no circuito. 

Nürburgring precisava de uma mudança urgente, mas os administradores enfrentavam um grande problema: a pista era muito longa e reformar o circuito inteiro sairia muito caro. A parte sul chegou a ser considerada, mas como estava abandonada e defasada, não poderia ser usada sem antes passar por um grande reforma. Finalmente, em 1982, foi definido um traçado para o novo circuito, que utilizaria a linha de largada/chegada, parte do circuito sul e manteria a conexão com a parte norte, que poderia ser usada em algumas competições especiais. O resto do circuito sul voltaria a ser de uso público, servindo de rodovias e trilhas. 

As obras começaram em novembro de 1982, com a derrubada dos boxes e área ao redor, para criar uma conexão que permitisse que a parte norte funcionasse de forma independente durante a temporada de 1983, com uma área de boxes improvisada sendo construída.

Traçado utilizado em 1983, enquanto a nova pista era finalizada. Boxes foram improvisados, já que os originais foram destruídos para a construção do novo circuito. – Foto: reprodução
Novo traçado de Nürburgring, que foi inaugurado em 1984. – Foto: reprodução

Depois de quase dois anos de construção, o novo circuito foi inaugurado no dia 12 de maio de 1984 com a Mercedes-Benz Race of Champions, uma corrida especial com pilotos campeões da F1 correndo com o Mercedes 190E, lançamento da montadora. A prova foi vencida por Ayrton Senna, que apesar de estar apenas em seu primeiro ano na F1, foi convidado para preencher a vaga de Emerson Fittipaldi. 

Ayrton Senna disputa posição com Niki Lauda, em corrida especial promovida pela Mercedes. – Foto: reprodução

O circuito recebeu duas corridas de F1: o GP da Europa, em 1984 e o GP da Alemanha, no ano seguinte, mas Nürburgring acabou perdendo o posto de anfitrião da corrida alemã para Hockenheim. Restou ao circuito acomodar outras categorias até 1995, quando a popularidade de Michael Schumacher foi usada como arma para colocar Nürburgring também no calendário, passando a receber o GP da Europa (entre 1997 e 1998, a F1 correu no circuito como GP de Luxemburgo), já que o GP da Alemanha continuava em Hockenheim. Para esse retorno, a chicane Veedol foi modificada, ainda mantendo a forma original para outras categorias. 

Algumas modificações foram feitas durante os anos, como na parte norte, que ganhou um centro de visitantes e uma nova área de boxes para abrigar melhor os competidores das 24 Horas. Em 2002, veio a alteração mais significativa, com a adição da Arena Mercedes. No ano seguinte, a chicane “F1”, que antes era conhecida como Veedol e passou a se chamar NGK, também passou por uma mudança, por sugestão de Schumacher, que ajudou a pagar pela mudança ao participar de graça de um evento para os fãs. O heptacampeão também ganhou um conjunto de curvas com seu nome.

Traçado de Nürburgring em 2003, com a Arena Mercedes e o S de Schumacher. – Foto: reprodução

Nürburgring começou a sofrer seu declínio em 2009, quando um grupo de investidores quis incorporar um parque de diversões e um shopping ao circuito. Quando o dinheiro para a construção acabou, o governo teve que colocar dinheiro público para terminar as obras. Tudo parecia resolvido, com o complexo e a pista sendo alugados para um investidor, só que o projeto foi um fracasso de público e no parque de diversões, a montanha-russa chegou a ser inaugurada, mas logo foi desativada por falta de segurança. Em fevereiro de 2012, o contrato foi cancelado por falta de pagamento e o governo retomou o controle sobre o circuito.  Sem dinheiro para se manter aberto, o circuito estava com os dias contados, o que afetaria também os donos de negócios ao redor da pista, ameaçando deixar cerca de 3 mil pessoas sem emprego na região. 

No final de 2012, o governo declarou a falência do circuito e o colocou à venda. Em março de 2014, o Grupo Capricorn, junto com a GetSpeed, comprou o complexo inteiro, incluindo o shopping, hotel, pista e terreno, por 100 milhões de Euros. A Capricorn, que ficaria com dois terços da pista, não conseguiu pagar sua parte do acordo e o circuito foi colocado novamente à venda. O bilionário russo Viktor Kharitonov, co-fundador da farmacêutica Pharmstandard, comprou a parte da Capricorn e ficou com 80% da pista. Dois anos depois, Kharitonov comprou mais uma parte do circuito, sendo agora o dono de 99% de Nürburgring, com a GetSpeed, que administrava o circuito, ficando com o 1% restante. Mesmo com a situação financeira resolvida, o circuito, que desde 2009 vinha se revezando com Hockenheim na realização do GP da Alemanha. não conseguiu um acordo para manter as etapas de 2015 e 2017, que foram canceladas, deixando o circuito com outras categorias, como as corridas da DTM, Porsche Cup e GT Masters, além do famoso festival de música Rock am Ring. O Nordschleife continua em funcionamento, abrigando corridas de endurance e também os entusiastas que querem ter o gostinho de pilotar pelo Inferno Verde, pagando uma taxa de 25 a 30 Euros por volta. 

No dia 11 de setembro de 2021, a primeira curva do circuito de Nordschleife foi rebatizada de Sabine Schmitz, pilota natural de Nürburg, que venceu duas vezes as 24 Horas de Nürburgring e que por muitos anos foi a responsável pelo “Ring Táxi”, que levava turistas por uma volta rápida pelo circuito. Schmitz também participou do programa britânico Top Gear e faleceu de câncer em março de 2021. 

Sabine Schmitz conhecia Nürburgring como ninguém e ganhou uma curva com seu nome após falecer de câncer em 2021. – Foto: reprodução

Em 2020, o circuito teve a chance de suprir a vaga deixada por corridas canceladas devido ao Covid-19 e abrigou o GP de Eifel, nome dado em homenagem às montanhas que ficam perto do circuito.

Quando se fala de vencedores, Michael Schumacher é o piloto com mais vitórias no circuito, com 5, seguido de Jackie Stewart e Juan Manuel Fangio, com 3. 

Michael Schumacher comemora vitória em Nürburgring, em 1995, a primeira das cinco do piloto alemão no circuito. – Foto: reprodução

Na primeira corrida em Nürburgring, em 1951, apenas Paul Pietsch representou o país nas pistas. Já no ano seguinte, dos 32 pilotos no grid, 12 eram alemães. Entre os 42 pilotos da casa que já correram no circuito, apenas três saíram vitoriosos. Além de Michael, Ralf Schumacher venceu em 2003 e Sebastian Vettel em 2013, sendo o último piloto alemão a vencer neste circuito. A pista também é especial para Markus Winkelhock, que fez sua única corrida na F1 no GP da Europa de 2007, quando chegou a liderar a corrida por 6 voltas com sua Spyker.

Um feliz Markus Winkelhock é levado de volta aos boxes depois de abandonar a corrida em Nürburgring. Em sua única participação na F1, o alemão disse ter tido”os 15 minutos mais empolgantes de sua vida”, ao liderar a corrida por algumas voltas. – Foto: reprodução

Já entre os 18 brasileiros que correram em Nürburgring, apenas Rubens Barrichello já venceu no circuito alemão, em 2002, conquistando ainda 5 pódios, enquanto que Felipe Massa e Nelson Piquet conquistaram apenas pódios nesta pista. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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