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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Coreia

Sem dinheiro, o circuito da Coreia viu o sonho de receber a F1 se acabar em poucos anos

Ficha técnica

Nome do circuito: Korea International Circuito

Comprimento da pista: 5,615 km

Número de voltas: 55

Distância total: 308,630 km

Recorde da pista: 1.39.605, Sebastian Vettel (2011)

Primeira corrida na F1: 2010

Um dos maiores objetivos de Bernie Ecclestone era levar a F1 ao maior número de países possíveis. E fazer uma corrida na Coreia do Sul fazia parte desse projeto do chefão da F1 naquela época.

Finalmente foi feito um acordo para levar a F1 para o país e o local escolhido foi a cidade de Yeongam, cerca de 400 quilômetros ao sul da capital Seul. O acordo feito entre a categoria e os promotores, a Korea Auto Valley Operation (KAVO), que era uma parceria entre a M-Bridge Holdings e o governo regional de South Jeolla, previa que a corrida fosse realizada no país asiático até 2016, com a possibilidade de extensão até 2021.

Em setembro de 2009, a KAVO declarou que estava tudo certo para o início das obras, que precisavam terminar até julho de 2010, já que a corrida estava programada para acontecer em outubro.

Obras no circuito de Yeongam, que foram pagas tanto com investimento privado quanto com dinheiro público – Foto: reprodução

O traçado foi desenhado por Hermann Tilke, mas ao invés de um circuito permanente, o projeto foi feito para ser híbrido. A parte norte do circuito serviria para receber corridas o ano inteiro e seria permanente, com a parte sul, que englobaria os boxes e a linha de largada/chegada usados na F1, seria montada quando a categoria fosse correr no país. Essa parte sul ainda contaria com um complexo de hotéis, restaurantes e uma marina, para imitar a atmosfera encontrada em algumas pistas, como Mônaco.

Traçado do circuito de Yeongam, idealizado por Hermann Tilke – Foto: reprodução

A construção da pista estava indo bem, mas um longo período de mau tempo atrasou demais as obras do circuito. Os organizadores se mantiveram firmes e confirmaram que a pista seria inaugurada no dia 5 de setembro de 2010. A promessa foi cumprida e no dia 4 de setembro, quando foi realizado um evento chamado ‘Circuit Run 2010’, que teve o piloto Karun Chandhok no volante de uma Red Bull dando voltas pela nova pista.

Exibição da Red Bull marcou a inauguração da pista, que quase não ficou pronta a tempo – Foto: reprodução

Apesar da exibição, a pista não estava totalmente pronta e a inspeção que liberaria o circuito para receber a corrida acabou sendo adiada várias vezes. Faltando apenas 11 dias para a prova, a pista finalmente recebeu a luz verde, mas com pequenas obras ainda acontecendo. O circuito em Yeongam foi o primeiro no país a receber a homologação Grade A da FIA e um dos poucos a correrem no sentido anti-horário.

Mesmo assim, no dia 24 de outubro de 2010, o 1º GP da Coreia foi realizado, com direito ao Primeiro Ministro coreano na plateia. Uma chuva forte caia no circuito e a corrida começou atrás do safety car. Na terceira volta, a corrida foi interrompida e só recomeçou quando o clima estava melhor. Mesmo assim, a prova foi reiniciada com o safety car, que ficou na pista até a 17ª volta. A corrida contou com vitória de Fernando Alonso, depois que Vettel abandonou com problemas no carro, depois de liderar quase toda a prova. Lewis Hamilton e Felipe Massa completaram o pódio.

Sob forte chuva, parte da corrida foi realizada com o safety car na pista – Foto: reprodução

O traçado também nasceu com um problema grave, já que a entrada e saída dos boxes foram construídos na linha de corrida. O problema foi resolvido em 2011, com o muro da curva 17 sendo deslocado, para que os pilotos que estavam em voltas rápidas pudessem ver os carros desacelerando para entrar nos boxes. E para os pilotos que estavam voltando de suas paradas, foi instalado um sistema de luzes que avisava quando um carro estava passando pela reta principal. Foi somente em 2013 que a saída dos boxes foi modificada de forma permanente, com um desvio sendo feito na área de escape da curva 1, para que os carros voltassem na pista já na curva 2.

A qualidade das obras feitas no circuito foi bastante criticada pelos pilotos e o circuito nunca caiu no gosto da F1. O público que ia assistir às corridas também era bem abaixo do esperado e desaprovava a corrida, que era paga em parte com dinheiro público, que eles achavam que poderia ser melhor empregado. O circuito ainda ficava em uma localização de difícil acesso, cerca de 3 horas de trem da capital e sofria com a falta de acomodações na região, já que os hotéis prometidos no desenho do circuito não tinham saído do papel.

O maior problema para os organizadores, no entanto, eram as taxas cobradas pela F1. Só para receber a corrida em 2011 foram gastos cerca de 79 milhões de dólares, com boa parte dessa quantia indo para o pagamento das taxas da FOM. E para piorar a situação, a receita gerada pela corrida foi de apenas 23 milhões, deixando os organizadores no prejuízo. Vendo isso, a nova administração da província de South Jeolla achou a cobrança muito alta e não queria gastar uma quantia tão grande em uma corrida.

A única salvação para o GP da Coreia seria um novo acordo e em 2012, Ecclestone aceitou a nova proposta e eximiu o circuito de pagar as taxas de transmissão, além do aumento de 10% que estava previsto no contrato anterior, com o circuito economizando cerca de 20 milhões de dólares.

A corrida ainda foi realizada até 2013, quando descontentes com as altas taxas e com os prejuízos que se acumulavam, os organizadores tentaram mais uma vez apelar para um acordo com Bernie Ecclestone, que dessa vez não cedeu e a corrida saiu do calendário. Os promotores coreanos pediram para que a corrida não fosse realizada em 2015, apesar de aparecer no calendário oficial por conta do contrato, com a esperança de voltar a receber a F1 em 2016, mas a corrida ficou só na promessa e com o fim do contrato, também acabaram as esperanças da Coreia de contar com a categoria. 

Depois de tentar receber, sem sucesso, uma etapa do campeonato mundial de GT1, o circuito se contentou em receber a GT Asia, contando com uma certa popularidade. E para aumentar as competições na pista, foi construída em 2019, uma estrada que cria uma versão menor da pista, para ser usada como versão nacional.

Entre os vencedores, se Sebastian Vettel abandonou quando liderava a corrida de 2010, o piloto alemão se redimiu nos anos seguintes e venceu as outras três corridas disputadas no circuito. A vitória de Vettel em 2013 foi especial, já que o alemão fez o segundo Grand Chelem consecutivo (conquistar a pole, vencer após liderar todas as voltas e fazer a volta mais rápida) e foi o primeiro piloto depois de Jim Clark em 1963, a conseguir o feito em corridas seguidas.

Sebastian Vettel se redimiu e venceu as três corridas seguintes na Coreia – Foto: reprodução

Já em número de pódios, atrás de Vettel estão Hamilton, Webber e Alonso, com dois pódios cada, enquanto que Felipe Massa foi o único brasileiro a conseguir comemorar com champanhe, ao chegar em 3º na corrida de 2010, que tinha um grid recheado de brasileiros, com Rubens Barrichello, Bruno Senna e Lucas di Grassi também participando da corrida.

Felipe Massa foi o único piloto brasileiro a subir no pódio na corrida coreana – Foto: reprodução

Já a Coreia não tem muitos pilotos que tiveram destaque no automobilismo internacional. Os mais próximos a conseguir foram Sung-Hak Mun, que disputou a F2 (antiga F2 europeia) em 2011, Kang Min-jae, que fez um teste de F3 também em 2011, Heamin Choi, que disputou algumas provas da Indy Lights entre 2015 e 2018 e Tacksung Kim, que em 2018, disputou as 24 horas de Le Mans. Já o piloto Récardo Bruins Choi, que nasceu na Coreia mas foi criado na Holanda, chegou a disputar a F3 alemã em 2006 e 2007. Quando estava pronto para migrar para a GP2, uma ligação da KAVO mudou o rumo de sua carreira. Choi foi convidado a fazer parte de um programa de desenvolvimento de pilotos de F1 criado pelos organizadores do circuito e se mudou para a Ásia. Mas logo depois, a administração da KAVO foi mudada e o projeto não foi adiante, com Choi perdendo a chance de prosseguir sua carreira na Europa, restando a ele servir como embaixador da corrida disputada no país em 2011.

Récardo Bruins Choi perdeu a chance de disputar a GP2 para seguir projeto dos organizadores da corrida – Foto: reprodução

Foi somente em 2020 que o sonho de ter um piloto coreano na F1 se concretizou, mesmo que indiretamente. Jack Aitkens nasceu na Inglaterra, filho de pai escocês e mãe coreana. E apesar de disputar as corridas sob a bandeira britânica, sempre demonstrou orgulho por suas raízes coreanas e por isso também usa a bandeira da Coreia no macacão.

Orgulhoso de sua origem coreana, o britânico Jack Aitkens corre com as duas bandeiras no macacão – Foto: reprodução

Em 2020, Aitkens disputou o GP do Sakhir pela Williams, substituindo George Russell, emprestado para a equipe Mercedes para aquela corrida e atualmente continua com seu papel de piloto reserva na Williams, correndo também na GT World Challenge.

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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