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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: AVUS

Duas retas e um banking apelidado de "Parede da Morte". Assim era o circuito de AVUS, construído para dar glória aos alemães, mas viu a Ferrari dominar a única corrida oficial da F1 na pista

A história do circuito de AVUS começou nos primeiros anos de 1900, quando o príncipe Henry da Prússia, à frente do Kaiserlichen Automobil-Club, estava inconformado com o mau desempenho das montadoras alemãs nas corridas. Ele se juntou a outros nobres e criaram o Automobil-Verkehrs und ÜbungsStraße GmbH (tráfego de automóveis e estrada de treinamento Ltda), também conhecido como AVUS, para construir uma pista de treinamento na cidade de Berlim. 

A empresa só conseguiu os fundos necessários para fazer a pista sair do papel em 1913. A pista de AVUS era composta por duas longas retas, com dois hairpin em cada extremidade da pista. A pista tinha inicialmente 19,569 km, mas o dinheiro acabou quando a pista estava pela metade e a Primeira Guerra Mundial acabou de vez com os planos de recomeçar as obras nos anos seguintes. Quando a Guerra acabou, o empresário Hugo Stinnes salvou o projeto e as obras puderam recomeçar, com a pista sendo inaugurada no dia 24 de setembro em sua completa extensão. O berlinense Christian Riecken foi o vencedor da corrida principal, nos dois dias de corridas. 

Primeiro traçado de AVUS, que tinha 19,6 km de extensão. – Foto: reprodução

O circuito não foi usado apenas para testes e corridas. Quem tivesse um carro e quisesse usufruir da pista, bastava pagar 10 Reichsmark por volta ou uma assinatura trimestral de 1000 Reichsmark, um valor extremamente alto para a época. A pista, no entanto, tinha um pequeno problema. O peso dos carros se mostrou demais para o material usado na superfície e lombadas começaram a aparecer na pista, o que a tornava extremamente perigosa. Depois de anos de pesquisa, AVUS se tornou uma das primeiras estradas no mundo a receber uma camada de asfalto.

Rudolf Caracciola durante uma corrida em AVUS, em 1922. – Foto: reprodução

As corridas de motos foram as primeiras a usar a pista para competições, mas ao invés de usar a extensão completa da pista, um hairpin foi construído especialmente para a categoria e servia para que os competidores fizessem o retorno. O traçado reduzido tinha 8,500 km de extensão.

Foi somente em 1926 que a pista recebeu uma corrida de peso, com a realização do primeiro Grande Prêmio da Alemanha, que foi vencida por Rudolf Caracciola, correndo pela Mercedes.

Sempre andando bem na pista alemã, Rudolf Caracciola venceu o 1º Grande Prêmio da Alemanha, disputado em 1926. – Foto: reprodução

A corrida não ficou livre de acidentes graves. Nos treinos, Carlo Cattaneo, que era mecânico do piloto Luigi Platé, faleceu em um acidente. Já na corrida, Adolf Rosenberger se chocou contra a cabine de resultados, matando os três ocupantes.

Acidente durante a corrida deixou três mortos em 1926, quando o carro de Adolf Rosenberger se chocou com uma cabine de resultados. – Foto: reprodução

Todos esses acidentes fizeram os organizadores da corrida transferirem a prova de 1927 para o circuito de Nürburgring. Nesse tempo, a pista de AVUS foi reasfaltada e serviu como testes para carros foguetes, com Fritz von Opel atingindo a marca de 238 km/h em um Opel RAK 2.

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Fritz von Opel participa de um teste de carro-foguete em AVUS, durante uma pausa nas competições no circuito. – Foto: reprodução

Os problemas econômicos causados pela Grande Depressão paralisaram as corridas até 1931. No retorno das corridas, Caracciola venceu novamente com a Mercedes.

Rudolf Caracciola vence mais uma vez em AVUS, no retorno das corridas ao circuito depois da Depressão Econômica. – Foto: reprodução
Corrida da AVUS em 1935, a última antes da reforma que traria o seu famoso banking. – Foto: reprodução

Em 1936, a AVUS foi fechada para competições para dar lugar às obras que a tornaria a pista mais rápida do mundo. Um banking de 43° de inclinação foi construído na parte norte da pista. A inclinação, que era a maior já vista em circuitos, era para ser percorrida pelos pilotos com o pé embaixo.

Carros passam pelo banking em AVUS. Sem barreiras de proteção, ganhou o apelido de “Parede da Morte”. – Foto: reprodução

Para se ter uma ideia, Indianápolis tem uma inclinação de 11°, Monza tinha um banking de 21º e o famoso banking de Daytona tem 31º. Sem nenhuma barreira de proteção, qualquer erro poderia fazer o carro voar para fora da pista, o que rendeu o apelido de “Parede da Morte”. Na saída do banking foi construída uma torre de controle com a famosa estrela da Mercedes no topo, enquanto que a arquibancada, chamada de AVUS Tribune, foi colocada na linha de largada/chegada. Com a reforma, a pista passou a ter 19,279 km de extensão e a parte de motociclismo terminou com 8,327 km.

Parte norte do circuito de AVUS, com o famoso banking em destaque. – Foto: reprodução
Construção do banking na parte norte da pista, com a torre da Mercedes ao fundo. Feita de tijolos, o banking tinha 43º e tinha a maior inclinação já construída. – Foto: reprodução
Vista da Avus Tribune com a “parede da morte” ao fundo. – Foto: reprodução

Com as Olimpíadas acontecendo em Berlim em 1936, o circuito também foi usado para as provas de ciclismo em estrada, maratonas e os 50 km de marcha atlética. O circuito reabriu para as competições em 1937 e no ano seguinte, a corrida AVUS viu a Auto Union batalhar com a Mercedes pelo recorde de velocidade, já que os carros de Grande Prêmio foram proibidos de competir e as equipes trouxeram os modelos de streamlined no lugar.

Carros streamlined de Bernd Rosemeyer e Hermann Lang, na disputa pelo recorde de velocidade, em 1937. – Foto: reprodução

A corrida não-oficial foi realizada em duas baterias. Na classificação para a segunda, o piloto da Auto Union, Luigi Fagioli marcou a pole com o tempo de 4 minutos 8.2 segundos, com uma velocidade média de 280 km/h, tornando-se a volta mais rápida do automobilismo até aquele momento, sendo batida apenas 19 anos depois, na Race of Two Worlds, em Monza. A primeira bateria foi vencida por Rudolf Caracciola, depois de bater Bernd Rosemeyer na reta final.

Bernd Rosemeyer e Rudolf Caracciola disputam vitória em 1937. Em uma disputa emocionante até a bandeirada, Caracciola venceu na reta de chegada. – Foto: reprodução

A Mercedes ficou com o recorde na corrida, quando Hermann Lang, que venceu a segunda bateria, marcou a velocidade média de 261,2 km/h, que só seria batida em 1958.

Apesar da alta velocidade, o público não parecia muito animado, já que a longa reta deixava os espectadores muito tempo sem ver os carros. No ano seguinte, as corridas passaram a acontecer usando a pista de motociclismo. A pista sofreu outro baque, com a proibição de carros de Grande Prêmio de disputarem corridas no circuito, depois que Bernd Rosemeyer faleceu tentando bater um recorde de velocidade em Frankfurt e a pista de AVUS, por ser muito veloz, passou a não ser considerada segura para os carros.

O circuito entrou em reforma mais uma vez, com o plano de construir um novo banking na parte sul, já que o original seria destruído para conectar o circuito com uma estrada. Com isso, o circuito se transformaria em uma estrada pública, que seria fechada quando tivesse corridas agendadas. Mas novamente uma guerra entrou no caminho das obras, com alguns prédios sendo destruídos e a pista sofrendo danos pela passagem dos veículos militares.

Com a Alemanha destruída depois da guerra, as corridas ficaram de lado. O banking que estava sendo construído no lado sul acabou sendo transformado em um centro de treinamento de tiros do exército estadunidense, já que a barreira de terra já erguida era perfeita para amortecer a munição. A área ficou sendo usada para esse fim até a queda do muro de Berlim, quando foi desocupada e abandonada. 

Quatorze anos se passaram até que o dinheiro necessário para trazer o circuito de volta à vida fosse reunido. A pista ganhou uma nova camada de asfalto e o desvio que servia para o motociclismo acabou se tornando a parte sul do circuito, que passou a ter 8,299 km.

Traçado de AVUS depois da reforma, que passou a usar o hairpin do traçado para o motociclismo para os carros também, diminuindo a pista para pouco mais de 8 km. – Foto: reprodução

Reaberto em 1951, logo o circuito, que continuou com sua fama de rápido, começou a atrair os olhares. As Fórmulas 2 e 3 foram as primeiras a voltar ao circuito, no dia 1° de julho de 1951, com um público de 350.000 espectadores assistindo Paul Greifzu vencer as duas corridas. Em 1954, AVUS recebeu uma corrida não-oficial da F1, que teve a vitória de Karl Kling e o domínio da Mercedes, que levou os três primeiros lugares com Fangio e Hermann completando o pódio.

Karl Kling, Juan Manuel Fangio e Hans Herrmann, em domínio da Mercedes na corrida de 1954. – Foto: reprodução

O sucesso levou AVUS a conseguir tirar o GP da Alemanha das mãos de Nürburgring e receber a F1 de forma oficial no dia 2 de agosto de 1959. Com medo do desgaste excessivo dos pneus no banking, a corrida foi disputada em duas baterias, com a Ferrari de Tony Brooks vencendo ambas e ficando com a vitória.

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Um pódio ferrarista na única corrida de F1 disputada no circuito, que teve a vitória de Tony Brooks, com Dan Gurney chegando em 2º e Phil Hill em 3º, depois de somados os resultados das duas baterias. Essa foi a 6ª e última vitória de Tony Brooks e o primeiro pódio de Dan Gurney. – Foto: reprodução

A corrida não ficou marcada apenas pelo formato diferente de disputa, mas também pelos acidentes. Durante a corrida, Hans Herrmann capotou e foi jogado para fora do carro. Incrivelmente, o piloto escapou do acidente sem sofrer ferimentos.

Acidente de Hans Herrmann, durante a corrida de 1959. Ejetado do carro, o piloto escapou ileso do acidente. – Foto: reprodução

Já Jean Behra não teve a mesma sorte durante uma corrida de F2, que serviu de apoio para a F1. O francês acabou sendo vítima da “Parede da Morte”, quando perdeu o controle e seu Porsche voou por cima do banking. Não foi a primeira vez que um acidente desse tipo acontecia nessa parte do circuito, mas o piloto acabou saindo com vida. Já Behra não teve a mesma sorte, batendo com a cabeça num poste depois de ser jogado para fora do carro. Depois disso, as competições pararam de usar a parte de banking de todos os circuitos.

O carro do francês Jean Behra, um pouco antes de despencar de cima do banking. Piloto morreu depois de bater a cabeça em um poste, quando foi jogado para fora do carro. – Foto: reprodução

Essa foi a primeira morte no famoso banking e em choque, as autoridades suspenderam as atividades na pista até decidir o que fazer com o circuito. Apenas o motociclismo, que não usava essa parte do circuito, continuou a realizar suas provas. Apenas em 1961 os carros puderam voltar, mas apenas categorias de turismo e esportivos. Com a velocidade dos carros crescendo a cada ano, o circuito passou a ser considerado muito perigoso.

Com o desenvolvimento das estradas ao redor, o famoso banking na parte norte iria ser reduzido, para ao seu lado ser construído um anel rodoviário. Em 1967, as últimas competições usando o banking foram realizadas e em junho, essa parte do circuito foi demolida.

Enquanto a curva para ligar as duas pistas não ficava pronta, as corridas aconteciam apenas nas retas. Em 1971, no aniversário de 50 anos do circuito, a reforma terminou e a pista, que passou a ter 8,109 km, pode ser usada em sua totalidade. A F3 foi a primeira categoria mais importante a voltar a competir na pista, em 1976, com outras categorias alemãs vindo competir no circuito logo em seguida.

Em 1984, a DTM chegou no circuito e se tornou um sucesso logo de cara. A parte sul sofreria uma alteração em 1987, com a construção de um hairpin ainda mais apertado perto da área dos boxes, diminuindo o tamanho da pista para 4,879 km.

Corrida da DTM Opel Omega, em 1990, uma das categorias que continuou a competir no circuito. – Foto: reprodução

Com disputas acirradas dentro da pista e as velocidades dos carros aumentando a cada ano, o circuito começou a se tornar perigoso novamente e mais uma reforma foi feita em 1992, diminuindo o tamanho da pista mais uma vez, reduzindo o traçado para 2,639 km.

A DTM acabou saindo do circuito, com o campeonato de Super Touring se tornando a principal atração. Mas logo na primeira corrida, um acidente tirou a vida do piloto Kieth O’dor. Uma chicane foi adicionada ao local do acidente em 1996, mas com o circuito de Lausitzring sendo construído cerca de 130 km de Berlim, AVUS acabou perdendo seu apelo, com a última corrida oficial sendo realizada em 1998. No ano seguinte, uma corrida de veteranos foi feita para formalizar a despedida do circuito.

A pista de AVUS hoje é uma estrada que liga o bairro de Charlottenburg ao bairro de Nikolassee. – Foto: reprodução

A torre de controle acabou se transformando em um restaurante e hotel para caminhoneiros e a arquibancada foi preservada como um monumento, apesar de não ser bem cuidada.

A antiga torre de controle acabou se tornando um hotel depois do fechamento do circuito. – Foto: reprodução
Arquibancada abandonada em AVUS, com a torre de controle ao fundo. Em 2018, a estrutura foi comprada para se tornar um centro de eventos. – Foto: reprodução

Em 2018, os prédios remanescentes foram comprados pelo empresário Hamid Djadda, que visava construir um local de eventos no local. O teto da torre de controle, que já estava corroído pelo tempo, foi o primeiro a ser restaurado.

Projeto para o centro de eventos que seria construído na antiga arquibancada do circuito. – Foto: reprodução

A proximidade da arquibancada com a rodovia fez com que o restante da obra tivesse que ser feita em curtos espaços de tempo, para não atrapalhar o tráfego. Boa parte do projeto ficou pronta em outubro de 2021, quando o circuito completou 100 anos. Uma parte do novo complexo foi alugado por dez anos para uma emissora de televisão e na parte central da arquibancada foi construído um centro de eventos. 

A AVUS Tribune depois da reforma. Vidros escuros foram usados para que as luzes do centro de eventos não atrapalhasse os motoristas. – Foto: reprodução

Nem mesmo as arquibancadas podem ser usadas, já que o Departamento de Trânsito nas Estradas não quer que a movimentação distraia os motoristas. Isso também acaba com os planos de Djadda de expor carros antigos no local, como aparece no projeto original. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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