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SÉRIE CIRCUITOS DA F1: Anderstorp

Um café, três amigos e uma ideia. Dessa combinação nasceu o circuito de Anderstorp, que logo viu as estrelas locais brilharem em sua pista

O circuito de Anderstorp, localizado ao sul da Suécia, cerca de 400 km da capital Estocolmo, começou da ideia despretensiosa de três amigos em 1965. Sven “Smokey” Åsberg, Åke Bengtsson e Bertil Sanell tomavam seu habitual café juntos, quando começaram a pensar em maneiras de se sobressair sobre seus rivais. Os três corriam pela equipe Mosarp e Åsberg sugeriu construir uma pequena pista de teste, de apenas 1,5 km. Assim eles teriam como treinar e testar ajustes antes das corridas. 

O único problema estava no custo. Foi então que Åsberg sugeriu um plano mais ousado: construir uma pista de 4 km com o apoio dos comerciantes da região. Para conseguir convencer o maior número de apoiadores, o projeto incluiria uma pista de aterrissagem, para ligar a região à capital. Comerciantes convencidos, o novo circuito começou a ser construído em 1966, com o projeto ficando nas mãos do engenheiro Holger Eriksson. O piloto de F1 Joakim “Jo” Bonnier foi chamado para dar conselhos sobre a nova pista.

Sven “Smokey” Åsberg com Graham Hill, durante a cerimônia de abertura do 1º GP da Suécia, em 1973. – Foto: reprodução

A pista conta com uma longa reta, que é colada com a pista do aeródromo, com o resto do traçado formado por curvas mais técnicas. Diferente do que acontece nos demais circuitos, os boxes não ficam na reta de largada/chegada, já que a reta em que eles estão localizados (entre as curvas Gislaved e Södra) era curta demais e não se encaixava nas regras. A solução foi colocar a linha de largada quase meia volta depois. Foi somente em 1992 que a linha de largada/chegada foi reposicionada mais perto dos boxes. 

Traçado de Anderstorp, que praticamente não teve alterações durante os anos. – Foto: reprodução
Uma chicane foi colocada na curva Norra em 1974 e foi usada até 1977, com o traçado original sendo usado na corrida de 1978. – Foto: reprodução

Com o nome de Scandinavian Raceway, o circuito foi inaugurado oficialmente em junho de 1968, com uma corrida de carros esportivos vencida por Bonnier. Um mês antes, a pista foi secretamente inaugurada com um teste do recém formado Anderstorp Racing Club. 

Poster com detalhes da pista de Anderstorp e o convite para a inauguração. – Foto: reprodução

Logo após a inauguração, Åsberg chocou a todos com um projeto mais ambicioso ainda: receber a F1 dentro de 5 anos! Apesar de ninguém acreditar no projeto, Åsberg não se deixou abater e o circuito foi lentamente recebendo categorias mais importantes. A F5000 chegou em 1970, com o campeonato mundial de motociclismo chegando no ano seguinte.

Competição de World Class de motociclismo, em 1971. – Foto: reprodução

Em 1972, Åsberg viajou para a Bélgica para conversar com os representantes da FISA sobre a realização de uma etapa da F1 na Suécia. Depois de testes realizados na pista por Ronnie Peterson, o contrato foi finalmente assinado para a realização da corrida no ano seguinte. 

No dia 17 de junho de 1973, a torcida foi ao delírio no primeiro GP da Suécia, ainda mais depois de ver o piloto da casa, Ronnie Peterson, largando na pole.

Para delírio da torcida local, Ronnie Peterson marcou a pole no 1º GP da Suécia e liderou quase toda a corrida. – Foto: reprodução

O sueco se manteve na liderança até quase o fim da prova, quando um pequeno furo no pneu o fez perder tempo na pista, sendo ultrapassado por Denny Hulme a duas voltas do fim. Restou a Peterson se contentar com o 2º lugar. 

Hulme exalta Ronnie Peterson no pódio, que venceria a corrida se não fosse por um furo no pneu. – Foto: reprodução

Em 1976, o público pode presenciar um fato histórico. Foi a primeira e única vitória de um carro de seis rodas, quando Jody Scheckter levou sua Tyrrell P34 ao lugar mais alto do pódio. 

Com um carro de seis rodas, Jody Scheckter venceu a corrida em 1976 e fez história. – Foto: reprodução

As duas estrelas suecas, Ronnie Peterson e Gunnar Nilsson nunca conseguiram vencer no circuito e os dois não tiveram muitas oportunidades. Em 1978, Peterson faleceu em um acidente em Monza e Nilsson de câncer. Sem suas principais estrelas, as empresas perderam o interesse pela corrida e sem patrocínio, esse seria o último ano da corrida na Suécia, pelo menos com a F1.

Gunnar Nilsson, já careca devido ao tratamento de um câncer, visitou o compatriota Ronnie Peterson antes da corrida de 1978. Os dois pilotos faleceram naquele mesmo ano. – Foto: reprodução

Em 1980, a MotoGP voltou ao circuito, depois de uma breve passagem por Karlskoga e as corridas de motovelocidade aconteceram na pista de Anderstorp até 1990. A pista também passou a receber etapas da European Touring Car, impulsionadas pela entrada da Volvo na categoria.

Em 1990, a FIM exigiu que o circuito fosse modernizado, caso quisesse continuar a receber as corridas da MotoGP. Reformas feitas, quem passou a disputar corridas no circuito foi a World Superbikes. Em 1993, seria a vez da WEC fazer uma corrida de 24 horas no local. Reclamações por conta do barulho quase fizeram a prova ser cancelada. No dia da corrida, uma chuva torrencial atrapalhou o bom andamento da prova, o que causou perdas financeiras para os organizadores e o Anderstorp Racing Club acabou pedindo falência. 

Mesmo com todos os problemas, as corridas continuaram acontecendo e o clube se reorganizou, surgindo o New Anderstorp Racing Club, com cada vez mais categorias se alinhando no circuito, reacendendo a paixão dos suecos pelo automobilismo. O problema com o barulho não foi resolvido e por isso, a pista só pode receber corridas em 22 dias específicos, com a DTM sendo a categoria mais importante a correr no circuito. Ao invés de corridas, a solução foi focar em testes, que garantiriam um nível de barulho aceitável. 

O circuito passou a ter restrições de corridas por conta do barulho e recebe poucas categorias atualmente. – Foto: reprodução

Entre os maiores vencedores do circuito, Jody Scheckter e Niki Lauda estão empatados com duas vitórias cada, com Denny Hulme e Jacques Laffite tendo um cada. A vitória de Laffite não marcou somente a primeira do piloto francês na F1, mas também da equipe Ligier na categoria. Os quatro pilotos foram os únicos vencedores no circuito.

Dos dez pilotos suecos que já correram na F1, apenas cinco (Ronnie Peterson, Gunnar Nilsson, Torsten Palm, Reine Wisell e Bertil Roos) tiveram o gostinho de correr em casa, com Peterson se saindo melhor do que seus compatriotas e conseguindo dois pódios, por coincidência, na corrida inaugural e na derradeira. Depois dele, o melhor resultado fica por conta de Nilsson, que conquistou a 4ª colocação na corrida de 1977.

Ronnie Peterson (de amarelo) celebra pódio na última corrida de F1 disputada na Suécia. O piloto faleceu 3 meses depois, em um acidente em Monza. – Foto: reprodução

Entre os brasileiros, apenas os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace correram em Anderstorp, com Emerson conseguindo o melhor resultado, terminando a corrida de 1974 em 4º lugar. 

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Denise Vilche

Uma revista antiga sobre carros fez nascer uma paixão: a F1. Uma menina curiosa de oito anos queria saber quem eram aqueles tais de Senna, Piquet, Mansell e cia. que a revista mostrava em gráficos coloridos. E mais de 30 anos depois, essa menina, agora jornalista, continua mais apaixonada pela F1 do que nunca.

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